O jogo de estratégia Go, milenar e originário da China, tem sido alvo de interesse em países asiáticos, mas permanece pouco conhecido no Brasil. Em um tabuleiro de 19×19 intersecções, dois jogadores colocam pedras pretas e brancas, buscando controlar o maior território e capturar as peças adversárias. A vitória se dá pelo acúmulo de pontos entre território dominado e pedras capturadas.
O Go é um jogo de antecipação: cada pedra vale mais pelo cenário que cria do que pelo número imediato de capturas. Esse princípio tem forte ressonância com o processo judicial, onde as partes precisam prever os movimentos da outra parte para formular estratégias eficazes.
O documentário AlphaGo, lançado em 2017, mostra o confronto entre a inteligência artificial da DeepMind e o campeão mundial Lee Sedol em Seul, em março de 2016. A máquina venceu a partida por 4 a 1, demonstrando não apenas a capacidade de prever um grande número de jogadas futuras, mas também de executar movimentos que iam além do repertório humano, como a jogada 37 na segunda partida.
Esses avanços em IA, que incluem modelos como Claude, ChatGPT e Gemini, têm implicações diretas no direito processual. A IA pode oferecer previsões sobre o comportamento de tribunais, probabilidades de decisões e interpretação de normas, mas ainda não substitui a escolha estratégica do advogado. Decisões como a escolha do foro, a tese a ser defendida, o momento de transigir ou de persistir, e a avaliação do risco continuam sendo responsabilidade do profissional.
Assim como no Go, onde a vitória depende de antecipar o adversário, no contencioso estratégico o advogado deve planejar cenários futuros. Isso envolve discutir com o cliente quais provas produzir, preparar teses que possam ser apreciadas pelos tribunais superiores, e decidir sobre recursos e incidentes processuais. A IA pode fornecer dados e probabilidades, mas a interpretação e a decisão estratégica permanecem no campo do juízo profissional.
Em resumo, o jogo Go e o desenvolvimento de IA como o AlphaGo ilustram a importância de antecipação e planejamento no direito. A inteligência artificial oferece ferramentas que ampliam a capacidade de prever resultados, mas a estratégia jurídica continua sendo uma arte que requer julgamento, experiência e sensibilidade humana.
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